Por Janaína Araújo

A teoria do louco, embora em sua origem pareça uma anomalia estratégica, é sustentada por múltiplos referenciais científicos que a colocam no centro da racionalidade decisória de líderes e Estados. Longe de ser um improviso, trata-se de um método sofisticado de barganha, baseado em comunicação de risco, manipulação de percepção e controle simbólico da incerteza.

Esse raciocínio se expressa no clássico “jogo da galinha” (chicken game), no qual dois motoristas dirigem em direção um ao outro — e o primeiro a desviar “perde”. Se um deles parecer suficientemente louco para não desviar de forma alguma, o outro terá de ceder. No plano internacional, um líder que projeta disposição para a autodestruição (nuclear, econômica ou institucional) torna sua ameaça mais eficaz, justamente por parecer não se importar com os custos.

O desafio da teoria do louco não é apenas entender a loucura: é discernir o que há de racional na irracionalidade — e como responder a ela sem reforçá-la.

No contexto internacional, essa teoria ajuda a explicar por que líderes recuam diante de um protagonista aparentemente irracional: a incerteza sobre a resposta do “louco” ativa mecanismos psicológicos de autopreservação, levando à concessão ou à busca de caminhos menos arriscados.

A manipulação da percepção de uma população como forma de controle estratégico pressupõe ao Estado uma atenção e até um propósito imediato, maior ao que acreditam que sejam as intenções, que não necessariamente as reais intenções, de fato.

Essa distorção perceptiva é amplificada em ambientes de baixa confiança institucional, de rápida circulação de informações truncadas como as redes sociais, fazendo com que um líder se torne poderoso, não pela ação real, mas pelo que demonstra permitindo ao “louco” operar à margem do previsível, explorando o medo da imprevisibilidade.

A teoria do louco, neste enquadramento, é compreendida como parte da lógica racional da competição por poder. O líder que projeta descontrole estratégico ou agressividade não convencional amplia o custo de retaliação para o adversário e, portanto, gera um campo de vantagem. Ao tornar o curso das negociações incerto e perigoso, ele impõe seus próprios termos ou ganha tempo para consolidar posições.

Assim, a figura do “líder louco” pode ser uma encenação deliberada, um papel político dramatizado para moldar o campo das expectativas, confundir os adversários e desestabilizar instituições. O “louco performático” não age fora da lógica do poder — ele redefine os termos do jogo simbólico.

É nesse sentido que comportamentos imprevisíveis, como sanções tarifárias abruptas, rompimentos diplomáticos ou ensaios militares provocativos, se tornam ferramentas estratégicas realistas, e não falhas de cálculo.

A imprevisibilidade torna-se, assim, uma tecnologia política. O governante que cria instabilidade não está perdendo o controle — está usando a incerteza como forma de controle. A teoria do louco, nesse sentido, é uma tática biopolítica, na qual o medo, a dúvida e a desorientação funcionam como instrumentos de sujeição e dominação.

A aplicação da teoria do louco, como se demonstrou, não é uma abstração. Ela tem se manifestado concretamente em diversas situações nas últimas décadas — especialmente no campo da política externa, das negociações econômicas e das disputas tarifárias.

Líderes como Recep Tayyip Erdoğan, Hugo Chávez e Jair Bolsonaro também utilizaram, em graus variados, estratégias alinhadas à teoria do louco. Em momentos de crise, recorreram a declarações contraditórias, rupturas institucionais, gestos simbólicos disruptivos e ataques sistemáticos à imprensa, ao Judiciário ou a organismos internacionais, sempre com o objetivo de desorganizar a previsibilidade do jogo político.

Chávez transformou a instabilidade em método de mobilização popular; Erdoğan usou tentativas de golpe e retaliações militares como forma de consolidar o poder; Bolsonaro incorporou o caos retórico como prática de governo — sobretudo durante a pandemia da COVID-19 e nos embates com o STF. Em todos os casos, a imprevisibilidade não foi ausência de estratégia, mas modo de operação simbólica do poder.

A primeira resposta eficaz à teoria do louco é o reforço da previsibilidade estratégica por parte do lado ameaçado. Isso significa criar um padrão de comportamento institucional que reforce os compromissos com o multilateralismo; reduza a margem de manobra para reações intempestivas; mostre, de forma constante, que o país agirá com racionalidade, legalidade e estabilidade, mesmo diante de provocações.

A previsibilidade, ao contrário da passividade, constrange a loucura alheia. Ela reduz os incentivos ao blefe, pois impede que o “louco” tenha controle exclusivo da incerteza.

Como a teoria do louco atua fortemente no plano simbólico — isto é, na construção de imagens, discursos e percepções —, a neutralização exige capacidade de disputar a narrativa pública, tanto internamente quanto no plano internacional. A loucura performática precisa de palco.

No plano interno, países que enfrentam líderes com traços de loucura estratégica (ou que sofrem seus efeitos) devem fortalecer suas instituições de contenção: parlamentos fortes, judiciários autônomos, imprensa livre e participação civil organizada.

Uma das estratégias mais eficazes — ainda que delicada — é expor a racionalidade oculta da loucura encenada. Demonstrar, por meio de análises técnicas, comparações históricas e investigações jornalísticas, que o comportamento “irracional” é, na verdade, instrumento de manipulação emocional e política, enfraquece sua eficácia.

Diante dos últimos atos do governo americano, o primeiro movimento do governo Lula foi reafirmar, em declarações públicas e por meio do Itamaraty, o compromisso do Brasil com o multilateralismo, com a legalidade internacional e com a previsibilidade institucional. Diferente de uma retaliação emocional ou precipitada, o país reforçou sua postura racional e pacífica, apresentando nota oficial do Itamaraty rechaçando a medida; ativação do mecanismo de solução de controvérsias da OMC; reuniões de alto nível com chanceleres de países afetados (como Argentina e México).

Ao não entrar no jogo da irracionalidade, o Brasil impediu que houvesse o monopólio da narrativa do conflito.

Simultaneamente, o governo brasileiro articulou uma resposta regional e global, fortalecendo alianças comerciais alternativas e buscando apoio político em foros internacionais, como por exemplo; a reativação de frentes comerciais com União Europeia e China; reunião extraordinária do BRICS+ com ênfase em segurança alimentar e tarifas; diálogo com o G20 para construção de mecanismos antirretaliação; proposta de resolução na OMC contra medidas unilaterais disruptivas.

Essa movimentação reafirma o papel do Brasil como ator global moderador, deslocando o eixo do conflito do campo simbólico individual para o campo institucional coletivo — ou seja, transformando a loucura do outro em um problema sistêmico do qual vários países são vítimas.

O governo Lula também compreendeu que não bastava reagir formalmente. Era necessário disputar a narrativa da crise, especialmente diante da imprensa internacional, da sociedade civil global e dos organismos de comércio.

Nesse sentido, o Ministério das Relações Exteriores e a Secretaria de Comunicação da Presidência: deram entrevistas a veículos como The Guardian, Le Monde, El País e The New York Times; participaram de painéis no Fórum Econômico Mundial e em universidades dos EUA; produziram vídeos explicativos em várias línguas sobre o impacto das tarifas; reforçaram o discurso de que o Brasil é um líder democrático e racional em meio ao caos internacional.

Internamente, o governo brasileiro também agiu para amortecer os impactos econômicos da medida, protegendo setores vulneráveis e sinalizando estabilidade institucional ao mercado: redução temporária de tributos para produtores afetados; reestruturação de linhas de crédito agrícola e exportador via BNDES; campanha nacional de valorização de produtos brasileiros; mobilização dos governos estaduais e do Congresso em apoio à posição nacional.

Essas ações demonstram a aplicação prática de um modelo de contenção democrática, com participação de diversos atores institucionais na resposta coordenada — o que também enfraquece a eficácia simbólica da loucura estratégica.

Ainda em curso, a crise tarifária de 2025 representa um teste crucial para a política externa brasileira, mas já evidencia importantes vitórias: o Brasil não ficou isolado no cenário internacional; tarifas passaram a ser contestadas por outros países na OMC; o discurso internacional majoritário passou a associar o ocorrido à instabilidade e ao desrespeito institucional.

Enquanto isso, o Brasil fortaleceu sua imagem como potência diplomática racional, um gesto que reposiciona o país como mediador legítimo entre o Norte e o Sul global.

A partir de casos citados no texto, vimos que a loucura estratégica opera em múltiplas frentes: guerras comerciais, rupturas diplomáticas, crises sanitárias, sabotagens simbólicas e desinformação organizada. O caos não é um erro — é método.

Contudo, como demonstrado no caso brasileiro de 2025, essa lógica pode ser enfrentada. O governo Lula, diante do tarifaço, adotou uma estratégia de neutralização racional baseada em: previsibilidade estratégica; atuação multilateral; disputa simbólica da narrativa; fortalecimento interno institucional; exposição da irracionalidade como instrumento tático.

Esse conjunto de ações permitiu ao Brasil não apenas resistir à crise, mas transformá-la em oportunidade de afirmação diplomática e liderança simbólica internacional. A racionalidade, quando exercida com inteligência institucional, pode vencer a loucura encenada.

Portanto, a teoria do louco não é invencível. Sua eficácia está condicionada à inação, ao isolamento e à submissão discursiva do adversário. Quando enfrentada por meios inteligentes, colaborativos e racionais, ela se desfaz como aquilo que sempre foi: um teatro de poder.

 

*Dra. Janaína Araújo 

Advogada de Família e Eleitoral no escritório Lima e Araújo Advogados; Mestra em Direito; Pedagoga; Grafóloga; Servidora Pública de carreira; Membra do Tribunal de Ética e Disciplina OAB/BA; Membra do Instituto Brasileiro de Direito de Família; Membra do Instituto de Práticas Colaborativas; Coach Integral Sistêmica e Business; Analista de Perfil Comportamental para Empresas; Especialista em Direito de Família e Sucessões e Direito Eleitoral; Práticas Jurídicas Cível, Trabalhista e Previdenciária; Formação em Justiça Restaurativa; Líder do Grupo Mulheres do Brasil Núcleo Itabuna. advogada de Família e Eleitoral no escritório Lima e Araújo Advogados; Mestra em Direito; Pedagoga; Grafóloga; Servidora Pública de carreira; Membra do Tribunal de Ética e Disciplina OAB/BA; Membra do Instituto Brasileiro de Direito de Família; Membra do Instituto de Práticas Colaborativas; Coach Integral Sistêmica e Business; Analista de Perfil Comportamental para Empresas; Especialista em Direito de Família e Sucessões e Direito Eleitoral; Práticas Jurídicas Cível, Trabalhista e Previdenciária; Formação em Justiça Restaurativa; Líder do Grupo Mulheres do Brasil Núcleo Itabuna.