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A PRESCRIÇÃO:

Por Isaac Albagli:

Raimundo Correia Álvares, balconista de farmácia, simpático e carismático, foi eleito vereador na década de 1980. Também conhecido como San Felipo ou Liquinha, foi o autor do projeto de lei que deu o nome do médico e ex-vereador Nelson Costa ao famoso e populoso bairro de Ilhéus. Liquinha era uma figuraça e gostava de uma gororoba. A turma da Câmara brincava muito, sem, evidentemente, deixar de lado suas obrigações como legisladores. Na época estava na moda a música “Três neguinhos”, e logo surgiu uma paródia: “… tem, tem ,tem, tem três neguinhos… Jonga, Zévandro e Zé Pretinho…” – que seria uma espécie de “hino” da Câmara de Vereadores. Sem dúvidas, na história de Ilhéus essa foi a legislatura mais folclórica.

Lá se vão os três neguinhos e Liquinha para um congresso de vereadores em Brasília. Primeiro mandato e primeira viagem oficial, Liquinha deu as caras na abertura do congresso e se mandou para o hotel. Já no apartamento, bateu forte a vontade de tomar uma gororoba, eis que Liquinha começa a abrir as garrafinhas de bebida que ficavam em cima do frigobar. Consome todas. Whisky, Campari, Rum, Vodka… Dá um bagaço total. Saiu para passear no Conjunto Gilberto Salomão e como o quarto foi liberado, a camareira recolheu as dezenas de garrafinhas fazendo a substituição, tendo anotado o consumo. Zé Pretinho, seu companheiro de quarto, quando chegou nada notou.

No dia seguinte, hora da saída, aparece um valor astronômico na conta do apartamento. Coisa de cinco vezes maior que a diária normal. Zé Pretinho dá um pulo e diz: – “Tá errado…” O recepcionista vai checar e fala do consumo de 38 garrafinhas de variadas bebidas. Todos olham para Liquinha, que diz: “… pensei que estava incluído na diária…”. O pior era que o folclórico vereador estava sem grana. A diária da Câmara dava apenas para o hotel… Zé Pretinho pulou fora. Zévandro, idem, e aí sobrou para Jonga, naquela época o já consagrado advogado João Batista Soares Lopes Neto. Consumidor fiel de Brahma, Jonga foi solidário com Liquinha, que prometeu pagar o débito em suaves prestações mensais.

Passaram-se os anos, terminou o mandato de Raimundo Correia e tempos depois ele veio a falecer, para tristeza de todos. No enterro, Zé Pretinho pergunta a Jonga:

– E aí, Jonga, Liquinha lhe pagou aquela conta de Brasília?

Jonga deu uma risadinha e disse:

– Prescreveu!