
{"id":28460,"date":"2011-09-20T15:35:03","date_gmt":"2011-09-20T18:35:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.politicosdosuldabahia.com.br\/v1\/?p=28460"},"modified":"2011-09-20T12:07:23","modified_gmt":"2011-09-20T15:07:23","slug":"ipi-dos-carros-importados-o-custo-da-heranca-maldita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.politicosdosuldabahia.com.br\/v1\/2011\/09\/20\/ipi-dos-carros-importados-o-custo-da-heranca-maldita\/","title":{"rendered":"IPI DOS CARROS IMPORTADOS: O CUSTO DA HERAN\u00c7A MALDITA"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Por Jos\u00e9 Serra.<\/span><\/h4>\n<h4 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">H\u00e1 muito tempo parecia inevit\u00e1vel que o governo Dilma elevasse tributos sobre produtos industriais importados, como fez agora com o setor automobil\u00edstico, com a dura\u00e7\u00e3o prevista at\u00e9 o final de 2012. Isso porque recebeu uma grande heran\u00e7a maldita do governo Lula: a taxa de c\u00e2mbio hipervalorizada, produto das maiores taxas de juros reais do mundo.<\/span><\/h4>\n<h4 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Sem saber como enfrentar as causas \u2014 a heran\u00e7a \u2014, o governo se limita a combater as consequ\u00eancias. J\u00e1 tinha tentado fazer isso com medidas de restri\u00e7\u00e3o ao ingresso de d\u00f3lares, que se revelaram praticamente in\u00f3cuas, e o programa Brasil Maior, envolvendo uma sopa de pedras de pequenas medidas pontuais, em alguns casos rid\u00edculas, como na \u00e1rea de inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas. Um dos t\u00f3picos desse programa ilustra bem sua natureza de atuar sobre as consequ\u00eancias: subs\u00eddios fiscais para compensar os efeitos da valoriza\u00e7\u00e3o exagerada do d\u00f3lar.<\/span><\/h4>\n<h4 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O setor industrial brasileiro, incluindo o automobil\u00edstico, n\u00e3o pode ser considerado ineficiente. Sofre, isto sim, os efeitos da doen\u00e7a cambial. O real tem um valor nominal em rela\u00e7\u00e3o ao d\u00f3lar entre 30% e 40% acima do que deveria ter. J\u00e1 os chineses, que n\u00e3o s\u00e3o ing\u00eanuos, mant\u00eam a moeda uns 20% abaixo do que deveria valer. Um carro chin\u00eas id\u00eantico a um brasileiro e produzido com a mesma efici\u00eancia vai custar, em d\u00f3lar, uns de 50 a 60% menos s\u00f3 por conta das taxas de c\u00e2mbio.<\/span><\/h4>\n<h4 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Essa diferen\u00e7a poderia ser um pouco maior ou menor segundo os jogos de \u00edndices de pre\u00e7os escolhidos, mas o essencial n\u00e3o muda: a imensa diferen\u00e7a de competitividade se deve ao c\u00e2mbio. Ou seja, \u00e0 pol\u00edtica macroecon\u00f4mica petista, com seu vi\u00e9s essencialmente anti-industrial.<\/span><\/h4>\n<h4 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Falo da ind\u00fastria manufatureira porque, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 agricultura e \u00e0 minera\u00e7\u00e3o, a infla\u00e7\u00e3o internacional de pre\u00e7os compensou os efeitos negativos da sobrevaloriza\u00e7\u00e3o. Pesa aqui tamb\u00e9m a grande fatia do Brasil no mercado internacional desses produtos, que permite aos nossos exportadores, em certas circunst\u00e2ncias, puxar os pre\u00e7os para cima, para manter a rentabilidade dos seus investimentos.<\/span><\/h4>\n<h4 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Claro que em mat\u00e9ria de competitividade n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o c\u00e2mbio que conta. H\u00e1 a tributa\u00e7\u00e3o irracional e as car\u00eancias de infraestrutura. Um exemplo \u00e9 o custo da energia el\u00e9trica: para cada real que a ind\u00fastria gasta com esse insumo, 52 centavos v\u00e3o para tributos e reservas! Isto, somado ao cambio hipervalorizado, nos leva a ter a terceira energia el\u00e9trica industrial mais cara do mundo, em d\u00f3lares. Esse \u00e9 o maior exemplo, mas n\u00e3o o \u00fanico, da falta de uma pol\u00edtica industrial a m\u00e9dio e longo prazos, apesar de toda a ret\u00f3rica governamental em sentido contr\u00e1rio.<\/span><\/h4>\n<h4 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Mas tais fatores n\u00e3o obscurecem o peso do c\u00e2mbio, pelo menos sobre as importa\u00e7\u00f5es. Os produtos industriais importados sofrem carga tribut\u00e1ria efetiva m\u00e9dia mais pr\u00f3xima da que incide sobre a produ\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica.<\/span><\/h4>\n<h4 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A melhor maneira de um pa\u00eds manter a sua competitividade n\u00e3o \u00e9 por meio de tarifas muito altas \u2014 na m\u00e9dia ou para setores espec\u00edficos \u2014 nem de restri\u00e7\u00f5es quantitativas \u00e0s importa\u00e7\u00f5es. Essa competitividade deve ser mantida por meio de uma taxa de c\u00e2mbio, no m\u00e9dio prazo, a mais pr\u00f3xima da paridade do poder de compra. E \u00e9 preciso tamb\u00e9m organizar os mecanismos de defesa comercial.<\/span><\/h4>\n<h4 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A distor\u00e7\u00e3o dos juros e do c\u00e2mbio n\u00e3o nasceu de uma hora para outra, nem pode ser corrigida de repente, dadas suas dimens\u00f5es e prov\u00e1veis efeitos sobre expectativas. Mas ela chegou ao ponto em que chegou por causa das sucessivas e preciosas oportunidades perdidas desde que sobreveio a bonan\u00e7a nas contas comerciais do pa\u00eds, coincidindo com o come\u00e7o do governo Lula. A partir da\u00ed o Banco Central, com o benepl\u00e1cito do presidente da Rep\u00fablica, que ficou encantado com o populismo cambial ca\u00eddo dos c\u00e9us, lambuzou-se de erros.<\/span><\/h4>\n<h4 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O maior equ\u00edvoco deu-se durante a crise internacional da virada de 2008\/2009, quando a atividade econ\u00f4mica se retraiu, a infla\u00e7\u00e3o desabou e o c\u00e2mbio se desvalorizou sem pressionar os pre\u00e7os. Mesmo assim a taxa de juros brasileira, que foi aumentada nas v\u00e9speras da quebra do Lehman Brothers, manteve-se no mesmo n\u00edvel durante os quatro meses seguintes.<\/span><\/h4>\n<h4 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Teria sido o melhor momento para ajustar a economia a um regime monet\u00e1rio-cambial menos perverso do ponto de vista da competitividade, do emprego e das contas p\u00fablicas. Em vez disso, por\u00e9m, o governo preferiu abusar da lamban\u00e7a fiscal como instrumento de defesa do n\u00edvel de atividade econ\u00f4mica e de demagogia eleitoral.<\/span><\/h4>\n<h4 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Sa\u00edmos daquela crise como campe\u00f5es mundiais absolutos da taxa real de juros e com o c\u00e2mbio em acelerada revaloriza\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, \u00e9 curioso como figuras ilustres que \u00e0 \u00e9poca aplaudiram a suposta \u201cprud\u00eancia\u201d do BC, reconhecem, hoje, que o pa\u00eds perdeu uma grande oportunidade.<\/span><\/h4>\n<h4 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Voltando \u00e0 quest\u00e3o central destas notas: n\u00e3o vai ser f\u00e1cil administrar o esquema de incentivo tribut\u00e1rio segundo \u00edndices m\u00ednimos de nacionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o automobil\u00edstica (que inclui todo o setor de autope\u00e7as), at\u00e9 em raz\u00e3o da fraqueza do minist\u00e9rio do Desenvolvimento e do estilo clientelista do petismo governamental.<\/span><\/h4>\n<h4 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">De fato, como disse acima, sendo incapaz de livrar-se da heran\u00e7a maldita do governo Lula na gest\u00e3o macroecon\u00f4mica, e sem ter sequer no\u00e7\u00f5es claras a respeito do que seria uma verdadeira pol\u00edtica industrial, o atual governo procura atuar sobre suas consequ\u00eancias, com todos os apreci\u00e1vies custos pol\u00edticos, econ\u00f4micos e as incertezas jur\u00eddicas que isso acarreta.<\/span><\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jos\u00e9 Serra. 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