
{"id":113001,"date":"2018-10-20T12:58:29","date_gmt":"2018-10-20T15:58:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.politicosdosuldabahia.com.br\/v1\/?p=113001"},"modified":"2018-10-20T18:48:30","modified_gmt":"2018-10-20T21:48:30","slug":"orfa-com-pai-e-mae-e-dona-do-proprio-nariz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.politicosdosuldabahia.com.br\/v1\/2018\/10\/20\/orfa-com-pai-e-mae-e-dona-do-proprio-nariz\/","title":{"rendered":"\u00d3RF\u00c3  DE PAI E M\u00c3E E DONA DO PR\u00d3PRIO NARIZ"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-113002\" src=\"http:\/\/www.politicosdosuldabahia.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/2.jpg\" alt=\"2\" width=\"455\" height=\"517\" \/><\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify\">Deserta de entretenimento e abundante na exibi\u00e7\u00e3o de cenas com conte\u00fado de disc\u00f3rdia expl\u00edcita, a casa da justi\u00e7a n\u00e3o \u00e9 um lugar convidativo para o p\u00fablico infanto juvenil. Menos interessante ainda \u00e9 a vara do j\u00fari, onde o assunto inevit\u00e1vel \u00e9 a morte matada ou impedida pela Divina Provid\u00eancia. Ali, entre r\u00e9us atormentados, policiais atentos, testemunhas receosas e m\u00e3es infal\u00edveis, a presen\u00e7a de quem deveria estar na escola \u00e9 sinal de envolvimento precoce em alguma desventura muito sem gra\u00e7a &#8211; para n\u00e3o dizer aquela palavra que n\u00e3o deve ser dita.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">Quem v\u00ea, logo especula se \u00e9 um \u00f3rf\u00e3o ao lado de uma vi\u00fava em busca de justi\u00e7a. Ou, talvez, seja um filho de presidi\u00e1rio, aproveitando a chance de um abra\u00e7o ligeiro, fora do dia de visitas ao calabou\u00e7o. Qui\u00e7\u00e1 o garoto tenha sido convocado para falar sobre um filme de terror, assistido em tempo real e com a mais alta defini\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. O certo \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 hip\u00f3tese animadora.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">Naquela tarde chuvosa de inverno, que mais uma vez inundava a linda e maltratada Terra da Gabriela, d\u00favidas como essas aperrearam o juiz que chegava para a lida com os destro\u00e7os da guerrilha urbana. No corredor de acesso \u00e0 sala de audi\u00eancias se aglomerava o p\u00fablico do dia, mais ou menos parecido com o de todos os dias; no ar a mesma mistura de tens\u00e3o e melancolia j\u00e1 tantas vezes percebida. Mas, destoando do acabrunhamento geral, uma adolescente espevitada, vestida como se fosse dali direto para um baile funk, armava um salseiro dos bons: dedo em riste, voz estridente, posi\u00e7\u00e3o de desafio, a garota esbravejava sabe-se l\u00e1 contra quem, avan\u00e7ando at\u00e9 o limite que a prud\u00eancia recomendava diante de um policial bem posicionado no caminho e visivelmente treinado para gerenciar faniquitos como aquele.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">Tentando criar um fato novo que desmontasse aquele barraco, o magistrado irrompeu no recinto, apregoou uma cerimoniosa sauda\u00e7\u00e3o geral e retardou o passo rumo ao gabinete. Enquanto durou a caminhada, a iniciativa surtiu o efeito calculado, mas logo a porta se fechou e a capit\u00e3 de areia retomou a autoridade no trapiche repleto de desarmonia.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">J\u00e1 instalado \u00e0 cabeceira da mesa de batalha e ainda ouvindo o barulho que vinha de fora, o juiz aproveitou o momento em que todos se posicionavam e esquadrinhou a den\u00fancia do primeiro processo. Captou o conte\u00fado essencial da acusa\u00e7\u00e3o e localizou no rol de testemunhas um nome feminino seguido do destaque em mai\u00fasculas sublinhadas: menor de idade. Sim, era como testemunha mesmo que ela estava ali e s\u00f3 havia um jeito de saber o que a mocinha, que certamente j\u00e1 tinha enjoado da boneca, poderia esclarecer acerca de uma grave tentativa de homic\u00eddio ocorrida numa madrugada de seresta no morro.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">&#8211; Por favor, chama a garota pra depor primeiro.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">Pequena, musculosa e empertigada como uma atleta de gin\u00e1stica ol\u00edmpica, ela j\u00e1 chegou puxando a cadeira e entregando a carteira de identidade. Parecia treinada para combate.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">&#8211; Boa tarde, seja bem vinda. Voc\u00ea foi indicada como testemunha e vai precisar responder umas perguntas sobre uma confus\u00e3o que t\u00e1 sendo investigada. Basta falar o que sabe, a conversa \u00e9 tranquila, o lugar \u00e9 de respeito; n\u00e3o tem motivo pra estresse, combinado?<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">&#8211; Era conveniente sossegar a guria para garantir a disciplina no servi\u00e7o.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">&#8211; De boa.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">&#8211; Mas cad\u00ea sua m\u00e3e, n\u00e3o veio?<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">&#8211; Se depender de minha m\u00e3e vim pra audi\u00eancia, voc\u00eas n\u00e3o v\u00e3o me ouvir \u00e9 nunca &#8211; A menina estava de boa, mas era briosa &#8211; Vim com meu marido, dot\u00f4. E sou dona do meu nariz. &#8211; A olhada na dire\u00e7\u00e3o do r\u00e9u, t\u00e3o rom\u00e2ntica quanto poss\u00edvel para as condi\u00e7\u00f5es de tempo e lugar, n\u00e3o deixou m\u00ednima d\u00favida sobre quem era o dign\u00edssimo.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">Catorze anos de idade, casada com presidi\u00e1rio, m\u00e3e ausente, pai pai ignorado: era situa\u00e7\u00e3o de alerta m\u00e1ximo e a cautela recomendava a presen\u00e7a imediata de algum representante do Conselho Tutelar. O Estado n\u00e3o poderia ficar indiferente e talvez fosse a hora de acabar com aquele amor bandido e encaminhar a adolescente para alguma institui\u00e7\u00e3o oficial de acolhimento. A convoca\u00e7\u00e3o foi discretamente enviada para a equipe de apoio, enquanto o papo embalava na audi\u00eancia.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">&#8211; Mas n\u00e3o \u00e9 porque voc\u00ea est\u00e1 casada que deixou de ser filha. Uma audi\u00eancia desta \u00e9 coisa muito s\u00e9ria e sua m\u00e3e deveria estar sabendo. Ou melhor, ela deveria estar aqui.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">&#8211; N\u00e3o falo com minha m\u00e3e desde que me casei, dot\u00f4. Faz tr\u00eas anos.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">&#8211; Ent\u00e3o quer dizer que voc\u00ea est\u00e1 casada com esse rapaz desde 11 anos? \u00a0&#8211; Ao inv\u00e9s de \u201crapaz\u201d, quase sai \u201cped\u00f3filo\u201d.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">\u00a0&#8211; N\u00e3o, dot\u00f4. Ele \u00e9 meu segundo marido. T\u00f4 com ele s\u00f3 faz um ano. Com o primeiro \u00e9 que eu fiquei dois anos, mas n\u00e3o deu certo, um dia ele me bateu e eu larguei. O que mais poderia haver naquela minibiografia?<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">O que mais poderia haver naquela minibiografia?<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">\u00a0&#8211; Pera\u00ed, pera\u00ed, pera\u00ed, como assim? Sua m\u00e3e deixou voc\u00ea casar com 11 anos? Voc\u00ea apanhou, se separou, casou de novo e ela n\u00e3o est\u00e1 por perto?<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">\u00a0&#8211; Oxe! Ela achou foi bom que eu casei cedo. S\u00f3 vivia dizendo que j\u00e1 tava na hora de eu ir embora do Espelho, que eu tava atrapalhando o servi\u00e7o dela. Eu tamb\u00e9m n\u00e3o gostava de l\u00e1, tava doida pra sair dali, detestava aquele lugar. Ela n\u00e3o sai de l\u00e1 e pr\u00e1 l\u00e1 eu n\u00e3o volto. D\u00e1 pra entender?<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">&#8211; Mas como \u00e9 que pode detestar a Praia do Espelho, menina, um para\u00edso daquele? L\u00e1 perto de Porto Seguro, n\u00e9? Deve ser um privil\u00e9gio morar ali. Lugar lindo, sossegado, bom pra viver em paz, em contato com a natureza. Vem do mundo todo pra conhecer&#8230;<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">O dileto leitor que conhece o litoral sul da Bahia bem pode compreender o espanto. Afinal, ali est\u00e3o as exuberantes praias do sem fim e quem j\u00e1 bebeu \u00e1gua de c\u00f4co e suco de cacau por aquelas bandas, sabe muito bem que de Cairu a Corumbau n\u00e3o h\u00e1 nada igual; que beleza \u00e9 Barra Grande. Itacar\u00e9 e Boipeba. Morro. Coroa Vermelha. A regi\u00e3o onde os primeiros nativos Ad\u00e3o e Eva viveram at\u00e9 o encontro com uma insinuante surucucu pico de jaca&#8230;<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">Mas, definitivamente, aquele n\u00e3o era um dia de sol e um torpedo rabiscado pelo digitador acabou com a gra\u00e7a do passeio; \u201cn\u00e3o \u00e9 da praia que ela t\u00e1 falando n\u00e3o, doutor. Espelho \u00e9 o nome do maior brega daqui da cidade. Fica l\u00e1 na zona norte.\u201d<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">Sil\u00eancio no tribunal. Alguns olhares entrecruzados, um ou outro pigarro for\u00e7ado e o ru\u00eddo do velho refrigerador de ar, que seguia resfolegando e implorando por aposentadoria.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">&#8211; \u00d4pa, acho que voc\u00ea falou de um lugar e eu pensei em outro &#8211; foi o que deu pra arranjar como desculpa oficial.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">A garota pareceu se divertir diante de tamanho embara\u00e7o e com um sorriso conciliador absolveu o merit\u00edssimo forasteiro, que aproveitou o momento para mudar o rumo da prosa e avan\u00e7ar na parte t\u00e9cnica da produ\u00e7\u00e3o de prova.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">\u201cBriga generalizada de bar, iniciada por causa de um esbarr\u00e3o na pista de dan\u00e7a e encerrada com uma facada certeira desferida pelo r\u00e9u. V\u00edtima neutralizada por um golpe nas costas logo depois de ter sacado o rev\u00f3lver. Se n\u00e3o fosse a bravura do rapaz, teria acontecido uma trag\u00e9dia, muita gente teria morrido.\u201d Um ap\u00f3s outro, os depoentes repetiram a vers\u00e3o que louvava o hero\u00edsmo do denunciado. Uma das testemunhas mais faladeiras, diga-se de passagem, era uma ex-namorada dele e foi gra\u00e7as ao encontro de rivais l\u00e1 fora que o clima havia esquentado antes da audi\u00eancia. A v\u00edtima, por sua vez, nada esclareceu sobre epis\u00f3dio, admitindo meio constrangida que daquela noitada s\u00f3 se recordava do momento em que acordara no hospital.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">Enquanto o promotor apresentava as alega\u00e7\u00f5es finais, reconhecendo como provada a leg\u00edtima defesa de terceiros, quartos e quintos, o conselheiro tutelar chegou e passou reservadamente o relat\u00f3rio informal: a situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 era acompanhada pelo \u00f3rg\u00e3o; de fato, as priva\u00e7\u00f5es eram de toda ordem e a av\u00f3 foi a \u00fanica base familiar valorizada como tal at\u00e9 se tornar moradora de rua, consumida pela depend\u00eancia qu\u00edmica. O tal do segundo casamento trouxe organiza\u00e7\u00e3o m\u00ednima para a vida da menina, que era bem tratada e recebia apoio moral e material da fam\u00edlia do marido. Em outras palavras, parecia que o carrinho da montanha russa estava se aprumando e era melhor n\u00e3o meter a colher naquela vida conjugal, que ia muito bem e o Estado n\u00e3o tinha nada mais seguro para oferecer al\u00e9m do monitoramento \u00e0 dist\u00e2ncia.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">A Defesa se manifestou em poucas linhas e a senten\u00e7a saiu na hora. R\u00e9u absolvido, pris\u00e3o revogada, fam\u00edlia reunida, caso encerrado. Para aquela gente calejada, era o al\u00edvio de um desfecho com danos reduzidos. Para a justi\u00e7a criminal, um processo a menos na estante. Para a comunidade, um inc\u00f4modo retrato da pr\u00f3pria decad\u00eancia.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">Evitando participar da conversa de bastidores que sempre acontece no intervalo entre audi\u00eancias, o juiz se retirou e foi arrumar o n\u00f3 da gravata no lavabo. Agora o alto falante embutido na caixola j\u00e1 tocava Raul; era aquela que diz qualquer coisa sobre a comodidade do sujeito alegre e satisfeito que se olha no espelho &#8211; ah, o espeho -, acreditando que \u00e9 um doutor, padre ou policial que contribui com sua parte para um tal de belo quadro social.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">De volta para a sala, ele se ajeitou na poltrona, folheou o processo seguinte da pauta e seguiu com o expediente, torcendo muito para que aquele casal fosse feliz por longa vida<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify\">Por\u00a0Gustavo Henrique de Almeida Lyra, Juiz da Vara do j\u00fari e de a\u00e7\u00f5es penais da Comarca de Ilh\u00e9us<\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Deserta de entretenimento e abundante na exibi\u00e7\u00e3o de cenas com conte\u00fado de disc\u00f3rdia expl\u00edcita, a casa da justi\u00e7a n\u00e3o \u00e9 um lugar convidativo para o p\u00fablico infanto juvenil. 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